domingo, 14 de outubro de 2007

Histórias de Anansi

Estou a ler um livro muito giro. Não sabia o que escrever no blog, por isso decidi partilhar um pouco do meu livro convosco:

"Ora bem, provavelmente todos vocês conhecem algumas histórias de Anansi. Provavelmente, não há ninguém no mundo que nãoconheça algumas histórias de Anansi.
Anansi era uma aranha, quando o mundo ainda era uma crainça e, todas as histórias estavam a sercontadas pela primeira vez. Costumava meter-se em sarilhos, e costumava safar-se dos sarilhos. A história do Tar Baby, aquela que costumam contar sobre o Bre'r Rabbit? No começo, essa era uma história de Anansi. Alguns povos pensam que ele era um coelho. Mas estão enganados. Não era um coelho. Era uma aranha.

(...)

Já que estivemos há pouco num funeral, deixem-me contar-vos uma história de Anansi, sobre a altura em que a avó dele morreu. (Não se preocupem, ela já era velhinha, e morreu durante o sono. São coisas que acontecem.) Ela morreu muito longe de casa, e por isso o Anansi atravessa a ilha com o seu carrinho de mão, e pega no corpo da sua avó, e põe-no no carrinho, e empurra-o para casa. É que ele quer enterrá-la perto do baniano nas traseiras da sua cabana, percebem?

Agora imaginem, ele está a atravessar a cidade, depois de andar a empurrar o carrinho de mão com o cadáver da avó toda a manhã, e pensa 'tou a precisar de beber um copo. Por isso entra na loja, pois essa aldeia tem uma loja, uma loja que vende de tudo, e cujo dono é um homem facilmente irritável. Ora Anansi entra e bebe um bocado de whisky. Bebe mais um bocado e pensa, vou pregar uma partida a este tipo, e por isso diz ao lojista, anda, vai levar um copo de whisky à minha avó, que está lá fora a dormir no carrinho. Podes ter de a acordar, porque ela tem um sono muito pesado.

E então lá vai o lojista, sai da loja com a garrafa e vai até ao carrinho, e diz à velhota: «Ouça, tem aqui o seu whisky». Mas a velhota nem se mexe. E depois faz uma coisa que os mortos costumam fazer nos dias de calor: solta uma sonora flatulência. Ora o lojista fica tão furioso com a velhota por tê-lo presenteado com tal flatulência, que lhe bate, e volta a bater, e bate-lhe ainda mais uma vez, e ela cai do carrinho ao chão.

Nessa altura o Anansi sai a correr da loja e começa a gritar, e a berrar e a carpir e a continuar a berrar, e a dizer: a minha avó, a minha avó está morta, olha o que fizeste! Assassino! Malvado! E o lojista diz ao Anansi: não diga a ninguém que fui eu, e dá-lhe cinco garrafas inteiras de whisky, e uma sacola com ouro, e um saco de bananas-de-são-tomé, e ananases e mangas, para lhe calar o berreiro e ir-se embora dali.
(É que ele pensa que foi ele quem matou a avó do Anansi, percebem?)

E assim lá vai o Anansi, empurra o carrinho até casa, e enterra a avó sob o baniano.
No dia a seguir, o Tigre vai a passar pela casa do Anansi e, ao sentir o cheiro de comida a ser cozinhada, resolve fazer-se de convidado. E o Anansi, que estava a preparar um festim, não tem outro remédio que não convidar o Tigre e a sentar-se e a comer com ele.
E diz o Tigre: meu Irmão Anansi, onde arranjaste tu esta deliciosa comida? E nem penses em enganar-me. E onde arranjaste estas garrafas de whisky, e aquela grande sacola cheia de moedas de ouro? Se me mentires, arranco-te o pescoço.
E o Anansi responde-lhe: não te posso mentir, Irmão Tigre. Obtive tudo isto por ter levado a minha falecida avó à aldeia num carrinho de mão. E o merceeiro deu-me todas estas coisas preciosas por lhe ter trazido a minha falecida avó.

Ora o Tigre não tinha nenhuma avó ainda viva, mas a mulher dele ainda tinha mãe, por isso vai até casa e chama pela mãe da mulher e diz-lhe, avó, anda cá fora, que temos de ter uma conversinha. E ela vem cá fora, e espreita para todos os lados, e pergunta: mas que se passa? Bom, o Tigre mata-a, apesar de a sua mulher gostar muito da mãe, e põe o corpo num carrinho de mão.
E empurra o carrinho até à aldeia, com o corpo da sogra lá dentro. Quem quer um cadáver?, pergunta ele. Quem quer uma avó morta? Mas as pessoas limitavam-se a zombar dele, e riam-se dele, e gozavam-no, e quando viram que estava a falar a sério e não se ia embora bombardearam-no com fruta podre até correrem com ele dali.

Não era a primeira vez que Anansi fazia o Tigre de parvo, e não seria a última. A mulher do Tigre assegurou-se de que ele jamais se esquecera de como matara a sua mãe. Havia dias em que o Tigre sentia que o melhor era não ter nascido.


Esta é uma história de Anansi."


Anansi, aparentemente, porque eu não conhecia nenhuma história dele até à data, é um deus africano, bastante malandrinho. Ehe.

Um comentário:

Lovely Rita disse...

Já tinha visto isto. Reconheço-o de algum lado...
Mas donde, donde????

Coitado do Tigre.