quinta-feira, 15 de novembro de 2007

03:46 minutos

Soaram os primeiros acordes. Mentira. Ainda se afinam as guitarras, verificam-se as cordas e o volume do som. Foi nessa altura que eles se conheceram, ele e ela.
Ele com a sua gravata às riscas e cabelo escorrido sobre a cara; ela com uma saia axadrezada e olhos azúis saltitões de luminusidade.
Agora sim. Os primeiros acordes foram dados, um solo de guitarra solene; um primeiro beijo foi partilhado. Lento e desleixado que os apanhou de surpresa, tal como o início da batida da bateria, aquele 1, 2, 3 antes do começo.
A voz amplificada pelo microfone fez ecoar palavras como gosto de ti e acho-te interessante, palavras essas que voaram para os ouvidos de ambos.
A música parecia ter dinâmica e bom ritmo, a letra da mesma é agradável ao ouvido; bate-se o pé e fecham-se olhos. Mas depressa começa o baixo a vir abaixo. O som torna-se, não tanto insuportável, mas talvez um pouco aborrecido.
O vocalista faz o melhor que pode, também eles o fizeram. Mas, por coincidência ou não, a música acaba, não tão bem quanto podia ter acabado. Soltam-se lágrimas, a banda agradece e o casal separa-se.
Não se pode viver de música. Não há nenhuma que dure para sempre.
(Só os Oasis, que parecem nunca acabar.)

*

O Romance tem olhos de €

Anabela não se considerava uma pessoa romântica. Mas quando o Romance lhe bateu à porta, ou antes, tocou à campainha, fazendo ecoar um barulho estridente pelas divisões, ela não teve outro remédio que convidá-lo a entrar, nem que fosse por uma questão de boa educação.
Ele entrou, arremeçando sorrisos calorosos, palavras agradáveis e propostas sedutoras.
Anabela não estava habituada a ter visitas em casa: era péssima nisso. Quando andava na escola, era a rapariga típica de óculos redondos e borbulhas bexigosas, que se sentava ao fundo da sala sozinha; que passava os intervalos a um canto a comer fruta. Só teve um namorado, o Luís, génio da matemática e do trombone, mas, mesmo assim, nao tinha gostado verdadeiramente dele. Ela nunca tinha sequer vislumbrado o Romance, contudo, ali estava ele, sentado na poltrona forrada a plástico da sala, bebericando uma chávena de chá, que, supostamente, ela lhe dera.
Após vários minutos de resistência, Anabela foi coargida e deixou-se levar. Os prometidos beijos melosos, as carícias apaixonadas, os gestos arrebatadores e as súplicas doutro mundo foram cumpridos. E como o que é prometido, é devido, Anabela deu, de bom grado, os 500 €, incluindo taxas, juros e a quota parte do chulo.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

O Cerco

Podes viver da imaginação? Coro de vozes: "siiiiim!".
Eu não tenho espaço para a realidade. Ela podia fugir: abrir asas e saltar do precipício.
Nesse caso, que faria? Sonharia.
Com o quê?
Com a realidade.




Realmente, não lhe podemos escapar. *

Untitled.

Preto, à tua volta circulo, espalho-me na negrura da neutralidade, caio na tua imensidão infinita, mancho de escuridão os teus contornos irascíveis, violo os limites voláteis da tua cor e enrolo-me nos teus braços de sombra, na esperança de senti-los a abraçarem-me de volta.

Digestão

Está lá a toda a hora: aquele sentimento no fundo do estômago que nos faz sentir desconfortáveis; minúsculo, crescendo, alimentando-se de sucos gástricos, ácidos tóxicos e de quimos mutantes.
E as lágrimas caem, sem razão.
Pensamos nelas e não chegamos a qualquer solução. Porque ela não existe. Temos de as deixar cair.
E cresce mais um milimetro.
O ponteiro bate mais um segundo, outro a seguir, com um baque silencioso.
No âmago do intestino, continua a pontada de estranheza (e tristeza?) que consome as paredes encorquilhadas e segregantes.
E os olhos secam. Já não há mais água. Só para beber.

7 de NOVEMBRO!!!


O dia que nunca mais chegava, já chegou e não abrandou.
Deixou-nos mais pobres e nostálgicas, mas felizes.
Nostalgicamente felizes.

We wub Interpol!!!

Greed

Queremos sempre mais. Queremos comida, bebida, descanso, férias, guloseimas, feriados internacionais, nacionais, regionais; queremos ser os melhores, queremos melhores condições, queremos uma cama lavada, queremos uns ténis de marca, queremos estar na moda, queremos ter amigos, queremos encontrar o amor, queremos ser felizes, queremos ser jovens eternamente, queremos dar-nos bem uns com os outros, queremos competir, queremos vencer, queremos ter certezas, queremos prever o futuro,...
Queremos isto, queremos aquilo.
Queremos mais daquilo, queremos mais daqueloutro.
Queremos mais.
Mais do quê?
Mais de tudo.

*